Hóquei com pé no social

A maioria dos alunos torce para o Inter

Sempre defendi o papel de transformação social que pode ser desempenhado pelo esporte, e a visita a Porto Alegre só me me fez reforçar essa convicção. Cheguei à capital gaúcha em um lindo dia de céu azul e calor. Longe do frio do inverno, a cidade pode ter dias muito quentes, sendo apelidada pelos moradores de “Forno Alegre” com justiça. Uma das áreas verdes mais procuradas é o Brique da Redenção, pertinho do bairro boêmio da Cidade Baixa. Ali espero a carona de Daniel Finco, coordenador de desenvolvimento no Rio Grande do Sul. Juntos, seguimos rumo à zona sul, onde está localizada a sede da Associação Atlética Banco do Brasil (AABB). Passamos pelo estádio do Beira-Rio e o anexo ginásio do Gigantinho. O hóquei era praticado ali, dentro do projeto social do Colorado, o Interagir, mas com a mudança de administração foi deixado de lado. Mas deu frutos, e são esses que vou conhecer agora. Chegamos ao campo de grama sintética da AABB, um clube com excelente infraestrutura. Ginásio reformado, várias piscinas, restaurante, boa área de lazer. Um grupo de cerca de 12 crianças e adolescentes nos espera e basta os tacos serem liberados para ver o interesse que o hóquei desperta. A maioria é ex-participante do projeto e agora vai ao local por conta própria. Muitos dos pequenos atletas mora em abrigos mantidos pelo governo e chegam ao treino porque têm passe gratuito nos ônibus porto-alegrenses.

Daniel Finco orienta os alunos durante o treino na AABB

O treino ainda recebe alguns associados da AABB, que ficam curiosos ao verem a movimentação de tacos, bolas, e agora um equipamento completo de goleiro. Recentemente, Daniel adquiriu, com recursos próprios, uma proteção completa na Índia. Ela deve ser usada em campeonatos oficiais esse ano. O objetivo é participar dos campeonatos indoor e grama de base e do adulto 7-a-side. O time já teve uma experiência em competições oficiais: disputou o Brasileiro Indoor de 2010, perdendo os três jogos que disputou, mas saindo de quadra elogiado pela garra. O esporte deve ser ainda impulsionado pela construção de um campo oficial em breve, numa parceria com a Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Outra área de atuação é a sala de aula: Daniel está ministrando um curso de hóquei sobre grama (prático e teórico) na mesma universidade, dentro do programa de tópicos especiais em esporte. As aulas acontecem todos os sábados, de 8h30 a 12h30. Entre treinos, aulas e palestras o hóquei vai crescendo dia a dia no Rio Grande do Sul. Se o esporte puder fazer uma pequena (ou grande) participação na história de vida desses meninos, já valeu totalmente a pena.

O grupo que treina na AABB com Daniel Finco

Bah, aqui tem hóquei!

O grupo treinado por Diego Telles em Igrejinha (RS)

Diz o velho ditado que uma andorinha só não faz verão, mas no interior gaúcho a máxima popular nunca esteve tão errada. Diego Telles, 29 anos e professor de Educação Física, vem causando calor na pequena cidade de Igrejinha, a cerca de 40 minutos de uma das capitais nacionais do turismo de inverno, Gramado. Depois de procurar esportes diferentes para implantar na Escola Municipal Vila Nova, onde tem 21 turmas, graças à Internet chegou ao hóquei sobre grama. Fez contato com a Confederação Brasileira e foi indicado para conversar com Daniel Finco, responsável pelo desenvolvimento no Rio Grande do Sul. Fez um curso de participação e começou sua aventura. Ganhou três tacos, depois mais três, comprou dois, ganhou outros e chegou aos atuais 23. Recentemente adquiriu por meio de um ex-jogador que viajou à Índia uma roupa completa de goleiro.

Andressa faz o passe, marcada por Raissa

É noite de quarta-feira. Saio de Taquara, onde Diego mora com a mãe, rumo à vizinha Igrejinha. Chegamos ao ginásio e cerca de 40 crianças e adolescentes estão empolgados para começarem a treinar. Alguns, como Raissa de Oliveira, 13 anos, não poupam esforços. A adolescente, ex-aluna de Diego, mora em Três Coroas e vai até Igrejinha só por causa do hóquei. Diego só conta com a colaboração de uma mãe de aluna, que ajuda a tomar conta da garotada enquanto ele se divide entre o treino dos menores e o normal, realizados em quadras diferentes.

Os gêmeos Dhimitri e Cauan são alguns dos destaques do masculino

Sem um jogador experiente orientando, é impressionante a evolução de alguns alunos. É o caso dos gêmeos Dhimitri e Cauan, que se tiverem a chance de treinarem com adultos têm grande potencial no esporte. As meninas também não ficam atrás: mostram muita disposição na quadra e algumas já apresentam bons passes e visão de jogo. No ano passado, o grupo encarou mais de 24 horas de viagem para disputar o Campeonato Brasileiro sub-17 no Rio de Janeiro, e apesar de terem aprendido na hora algumas regras, como a de não jogar a bola direto na área antes de percorrer três metros, causou boa impressão. Ficou a lembrança de terem jogado pela primeira vez num campo oficial, os banhos no irrigador do campo de água e a visita à Praia de Copacabana. Ah, e as brincadeiras com o sotaque carioca: eu mesmo virei alvo das meninas, que gostaram especialmente da minha maneira de falar “misto”, ou melhor, “mixto”…

Treino dos menores, na outra quadra

Para que novos talentos surjam, Diego pensa em conseguir espaço em outras escolas, mas aí seria fundamental alguém para trabalhar junto com ele. Com pouquíssimo tempo livre por causa da quantidade de turmas, o jovem professor gaúcho é tranquilo e caseiro. Gosta de correr e do contato com a natureza. Serenidade que esconde um grande espírito realizador. Do nada, criou um excelente grupo e com certeza vai colher muitos frutos em breve. Diego é mais um dos heróis anônimos do hóquei nacional.

Com Diego Telles

Celeiro de campeões

Com as meninas do Floripa no treino de sábado à tarde

O campo de grama sintética está bem longe das dimensões oficiais do Centro de Hóquei de Deodoro, no Rio de Janeiro. Mas é ali, no bairro de Santo Antônio de Lisboa, que são forjadas as armas do melhor time do país na atualidade. Os números não mentem: o Florianópolis conquistou 12 títulos nacionais nos últimos 5 anos. Estava invicto havia cerca de 2 anos antes de perder para o rival Desterro na primeira rodada do Brasileirão 2012. Não faltam também prêmios individuais. No treino em que participo estão Laís Bernardino e Juliana Gelbcke, vencedoras do Prêmio Brasil Olímpico, oferecido anualmente pelo COB. Outros três grandes talentos do clube não estão presentes, mas por um bom motivo: Gabriel de Grandis, Luís Felipe Réus, o Lua, e Bruno Paes vão defender a seleção brasileira no Pré-Olímpico do Japão e já embarcaram para o período de preparação na Europa.

Treino em campo reduzido no masculino

No treino que acontece todo sábado, de 15h às 17h, os jogadores participam primeiro de um intenso trabalho físico sob as ordens do preparador Paulo Avelar. O bom condicionamento é uma das forças dos tricampeões brasileiros.  Mas sem dúvida a técnica apurada é o grande diferencial do Floripa, e aí os créditos são do argentino Fernando Valdés. Morando no país desde 1999, já comandou a Seleção Brasileira e hoje além dos times masculino e feminino, dirige uma escolinha destinada a formar futuros atletas.

Paulo Avelar comanda o treino físico

No treino, presta atenção a cada jogada, incentiva e corrige, como um bom técnico deve fazer. Pai de dois filhos, Fernando aluga casas de veraneio na bela praia do Santinho, no norte da ilha, onde também vive. Em um churrasco com a presença de uma prima argentina e o marido, me conta com empolgação sobre o início da construção do primeiro campo de hóquei de Santa Catarina, localizado próximo ao terminal de ônibus de Canasvieiras. Se com as condições atuais de treino (além do sintético, mais dos treinos semanais acontecem em uma quadra de cimento na Universidade Federal de SC) o time é sempre um forte candidato ao título, com a inauguração do campo é possível esperar muito mais.

Roberta puxa a fila no treino físico do feminino

O técnico argentino Fernando Valdes

Guaramirim: o hóquei de presente

Djeniffer com os pais e parte do grupo que treina em Guaramirim (SC)

Seu Vasques mantém a longa barba há anos, assim como o coração aberto. Andando pelas ruas de Guaramirim, pequena cidade de 30 mil habitantes no norte de Santa Catarina, é possível constatar a popularidade do “Papai Noel”, como é carinhosamente chamado pelas ruas. Todo Natal, ele troca a calça jeans e a camisa pela roupa vermelha do bom velhinho e distribui presentes e sorrisos para a criançada (ou melhor, piazada) da cidade. Sua filha, Djeniffer, atleta da seleção brasileira e do Desterro, não fica atrás: deu de presente à cidade os treinos de hóquei.

Novos alunos têm o primeiro contato com o hóquei

A rotina é corrida. Djeniffer trabalha como coordenadora da Fundação de Esportes da cidade vizinha de Corupá. Às quintas-feiras, vem correndo até em casa, onde pega o material e segue para o distrito de Guamirama, onde tem uma turma de 9 a 16 anos. Acompanho Djeniffer no primeiro dia de atividades no ano, debaixo de chuva. Ela mostra preocupação com o número de crianças que podem faltar, mas quando chegamos à escola mais de 30 meninos e meninas esperam ansiosas pelo primeiro treino. Além dos alunos de 2011, cerca de  6 crianças têm contato com o hóquei pela primeira vez. Djeniffer se desdobra durante o treino para atender toda a garotada. E consegue: sai rouca, mas recebendo o carinho de todos e apoio da mãe, Maria, que muitas vezes atua como psicóloga, conversando com as crianças que têm problemas familiares (e não são poucas). O pai também sempre ao está ao lado, acompanhando a filha até em competições quando possível.

Djeniffer e um dos alunos com a camisa nova da escolinha

Djeniffer ainda dá aulas em outro colégio no centro da cidade, aos sábados. Esse ano ela deve ser contratada pela CBHG para ser uma das responsáveis pelo desenvolvimento do hóquei no estado, trabalho que já faz de maneira voluntária há bastante tempo. Com mais esse incentivo, o hóquei pode ainda se espalhar por cidades vizinhas como Jaraguá do Sul, muito conhecida pelo futsal.  O sucesso na quadra pode se repetir, agora com um novo esporte. Djeniffer está fazendo a parte dela na busca desse objetivo.

Hóquei em Curitiba: uma grata surpresa

Daniel Herrmann em palestra para as crianças do projeto Atleta do Futuro, do Sesi

Confesso que cheguei a Curitiba sem grandes expectativas em relação ao hóquei na capital paranaense. Saio daqui com a sensação de que a cidade pode ser um dos pólos do esporte no país. Se depender do entusiasmo do novo responsável pelo desenvolvimento no PR o futuro é promissor. Daniel Herrmann, 26 , não para um segundo. Em apenas um dia acompanhando seu trabalho, deu para perceber que vem muita coisa pela frente. Nossa primeira parada foi no Clube Viking, da associação dos funcionários da Volvo. O local é uma das 5 sedes do projeto Atleta do Futuro, do Sesi. Chegamos lá no primeiro dia de atividades no ano, e Daniel estava lá para apresentar o esporte a duas turmas de crianças e adolescentes, com idades entre 9 a 16 anos. Ele começa a falar e os olhares são um misto de desconfiança e curiosidade. Quando têm o primeiro contato com os tacos e bolas já dá para ver a vontade de conhecer o novo esporte. Na próxima semana, Herrmann começa o trabalho com a garotada, num projeto que tem o objetivo de levar o hóquei aos 5 locais onde é desenvolvido o Atleta do Futuro. Só ali, cerca de 50 crianças e adolescentes devem praticar o esporte.

A criançada recebeu bem o hóquei em Curitiba

Saindo dali, fomos visitar uma das 9 Praças da Cidadania de Curitiba. São locais onde a população encontra todo tipo de serviço do poder público, aliado à prática esportiva. A que visitamos – a principal – conta com quadra de tacos, com arquibancada e placar eletrônico. O local ainda tem outra quadra de cimento e até piscina olímpica. Daniel está tentando conseguir um horário junto à prefeitura para a realização de treinos de hóquei. Outra possibilidade é usar a quadra para futuros torneios, e levando em conta o número de pessoas que circula por aí um bom público poderia assistir aos jogos.

Quadra da Praça da Cidadania, em Curitiba

Saindo de lá, Daniel passou em casa rapidamente e já se preparou para o próximo compromisso: uma palestra para alunos de Educação Física de uma universidade particular, a Uniandrade.  A aula teórica e prática – oferecida de maneira voluntária por ele – foi realizada no Colégio Estadual Paranaense, o maior da rede pública curitibana. Os alunos se interessaram bastante e alguns disseram que iriam aos treinos nas praças da cidadania. Além de apresentar o esporte pela cidade, Herrmann ainda treina uma vez por semana à noite com os atletas de Curitiba. Todos jogam pelo Desterro e conseguiram o benefício do Bolsa Atleta, mais um incentivo para seguirem firme no hóquei.  Saí de Curitiba cansado, mas feliz. Com mais alguns Herrmanns espalhados por aí, nosso esporte vai ganhar as quadras e campos do país.

O grupo que participou da aula para alunos da Uniandrade, em Curitiba

Londrina: o primeiro de muitos treinos

Saí  de São Bernardo do Campo em um ônibus da Viação Garcia. O relógio marcava 8h. Três horas depois, ainda estava saindo de São Paulo. Mais oito horas de viagem e avisto a rodoviária circular projetada por Oscar Niemeyer, um dos orgulhos dos londrinenses. Você pode estar se perguntando: Londrina? tem hóquei lá? não tinha… consegui organizar o primeiro treino na cidade, o que pode ter sido apenas a tacada inicial para algo bem maior.

Andrea e Franklim disputam jogada na quadra do Zerão

Na quadra do Zerão, um parque famoso na cidade usado para a prática de vários esportes e caminhadas, me encontro com Agata Barradas, atleta do Macau e estudante de Farmácia na Universidade Estadual de Londrina, Andrea Bernardes, que tinha chegado à cidade havia uma semana para estudar Educação Física na Unopar e seu noivo Franklim, professor na mesma universidade. Esse pequeno grupo fez história, participando do primeiro treino na cidade. Pelo jeito, o primeiro de muitos. Frankilim, que é professor no curso de mestrado em Exercício Físico na Promoção da Saúde, também na Unopar, trabalha em um projeto de parceria entre a universidade e a iniciativa privada, e pretende trazer para a cidade jovens talentos e atletas de alto nível, incluindo estrangeiros. Um técnico do exterior também pode ser contratado para o desenvolvimento do hóquei londrinense.

Um treino com cinco pessoas na quadra do Zerão pode ter sido apenas oprimeiro passo para o surgimento de um novo pólo para o hóquei na Região Sul. Se depender da vocação esportiva de Londrina e do entusiasmo dos organizadores tem tudo para dar certo!

Agata Barradas

ABC do hóquei

Jogadores do Palestra: Dhalsim, Fernando, Luciano, Johnnie e Cláudio (agachado). Ah, e eu de penetra! crédito da foto: Bussunda.

É noite de quarta-feira, dia de jogo do Corinthians pela Taça Libertadores da América. Apesar da disputa com o time mais popular do estado, as quadras do Clube Recreativo Esportivo Cultural, o CREC, estão cheias. Localizado no bairro Baeta Neves, em São Bernardo do Campo, o local é bastante usado pelos moradores. O pai de Fernando Miyazaki, que conhecemos na matéria anterior, gosta das aulas de ioga. O filho levou o hóquei indoor ao local. Ao lado dos amigos Dhalsim, Luciano, Bussunda e Johnnie e Cláudio, chama a atenção de quem joga basquete e futebol nas quadras vizinhas. O grupo que se reúne hoje para jogar no piso de cimento conheceu o esporte por meio de Fernando, que por sua vez descobriu o hóquei na internet. “Conversei com o pessoal da faculdade para ver se eles queriam começar a praticar junto comigo, já que parecia ser um esporte surpreendentemente pouco praticado, apesar das semelhanças com futebol em tamanho de campo, número de jogadores e o fato de ter que se fazer gols”, diz Fernando.

O time no Campeonato Brasileiro de 2011

Com o convite aceito pelos amigos, o grupo começou a treinar em uma quadra próximo à casa de Fernando, até que um amigo dele indicou o esporte ao então presidente do Palestra de São Bernardo, clube tradicional da cidade e que disputava o equivalente à 4ª divisão do Campeonato Paulista de futebol. Se com o esporte mais popular do país o clube não ia bem das pernas, porque não apostar em algo novo? A mídia descobriu a novidade e já com o nome do Palestra, o time participou de várias matérias para TV e jornais da região. Jogou dois campeonatos, o Brasileiro 7 a side em 2010 e o Campeonato Brasileiro de 2011. Depois do 7 a side o grupo recebeu autorização para treinar dentro do clube, mas após a primeira rodada do Campeonato Brasileiro, quando perdeu para o Matias por 2 a 0, a fechadura do campo onde treinavam foi trocada e a diretoria não atendeu nenhuma ligação feita pelos jogadores.

Jogo contra o Florianópolis no Brasileirão 2011

Sem o apoio oficial do clube, mas ainda usando o nome (o time foi recentemente federado à FHESP), o grupo sonha em voltar a disputar competições oficiais. Com número reduzido de atletas atualmente, jogar o Brasileiro é um objetivo mais distante, mas Fernando batalha atualmente pela realização de um Campeonato Paulista, com o Palestra voltando a campo (ou à quadra). Para quem começou a jogar sem nehum apoio ou incentivo oficial, é só mais um obstáculo a ser superado.